O Maior Ladrão Das Nossas Vidas

No outro dia, estava a jantar com a minha família e alguns amigos e conversávamos sobre a escola. A certa altura, falámos sobre a importância, cada vez maior, de uma vida equilibrada, focada mais em ser do que em mostrar.

Nessa altura, um amigo partilhou: “Eu, quando a minha vida acalmar, quero mesmo começar a fazer Yoga.” Logo a seguir, outra amiga disse: “Eu também gostava imenso de começar a praticar, mas o teu estúdio é longe… implicava organizar-me e criar prioridades.” Em ambos os momentos, sorri e acenei um sim.

A conversa continuou e outro amigo chamou-me. Cheguei-me mais perto e ele sussurrou: “Eu vou voltar às aulas, mas agora vou perder os 5 quilos que tenho a mais com o Mounjaro” — e piscou-me o olho. Eu voltei a fazer o mesmo: acenei que sim e sorri.

Tenho total à-vontade para falar com cada uma destas pessoas e dizer-lhes aquilo que vos vou contar agora. Mas a altura não me pareceu apropriada; éramos muitos na mesa, havia crianças, barulho, e preferi, desta vez, simplesmente acenar e sorrir. Na verdade, todos somos adultos, temos ideias diferentes e necessidades distintas. No entanto, estes exemplos — e outros que escuto há mais de 20 anos — comprovam como o maior ladrão da nossa vida continua por aí a roubar-nos da maneira mais sofisticada de todas, apesar de toda a informação que acumulamos sobre saúde, bem-estar e longevidade.

Este ladrão é muito sofisticado. É um género de Lupin: cheio de pinta, ginga, conhecimento, meios e recursos.

O maior ladrão da nossa vida somos nós mesmos. Não porque temos falta de tempo, de organização ou de conhecimento. Mas porque, apesar de tudo, continuamos à espera. Passamos meses, anos, às vezes décadas, a dizer a nós próprios: “Eu vou cuidar de mim, mas só quando este projeto terminar”, “Vou relaxar, mas só quando os miúdos crescerem”, “Eu vou aprender mais sobre mim mesmo quando conseguir subir mais um patamar na carreira”, ou “Eu vou finalmente enfrentar o medo de estar comigo mesmo e fazer meditação, mas primeiro vou emagrecer”.

Criamos uma narrativa perfeita que justifica o constante roubo feito por nós mesmos. O amanhã que imaginamos nunca chega com as condições ideais que exigimos. E o nosso cérebro prefere o conforto previsível de um hábito antigo, mesmo que ele nos adoeça, porque a mudança gera desconforto imediato. A espera constante não é prudência; é uma fuga — evitamos a mudança que dará trabalho.

Até podemos fazer aquilo que os nossos médicos, especialistas e cientistas aconselham: treinar, caminhar, comer saudável, hidratar, estar rodeado de natureza, ter relacionamentos com significado, aprender a gerir o stress, etc. Podemos executar uma rotina 360º que implica organização, dedicação e trabalho. Mas acabamos por descuidar o ponto principal — aquilo que o ladrão rouba como prémio supremo, porque é ali que a real mudança acontece: a conexão connosco mesmos. Um momento diário que treine a atenção, a consciência, o autoconhecimento e a conexão interna, transformando todas as outras tarefas não em passos numa jornada de perfeição, mas num caminho com direção e progresso.

Para uns, esse momento é em cima do tapete a meditar ou a praticar Ashtanga; para outros, é a escrita diária, a terapia semanal, etc. O método tem de ser escolhido por cada um. Uma metodologia que insista com delicadeza e de forma progressiva naquilo de que você tende a querer fugir e lutar; técnicas que apoiem a ligação ao seu corpo, à sua mente, às suas emoções e à sua energia, despertando compaixão, generosidade, consistência e foco.

Num quotidiano onde, cada vez mais, os algoritmos ditam as nossas escolhas, cabe a cada um de nós conseguir criar prioridades para pararmos de esperar que a vida acalme para cuidarmos de nós mesmos. Cuidar de nós é o que nos ajuda a acalmar a vida.

BOAS PRÁTICAS

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